JERSON KELMAN RENUNCIA AO IBRAM APÓS TRAGÉDIA EM BRUMADINHO

Quinze dias depois de ser eleito para a presidência-executiva do Instituto Brasileiro de Mineração
(Ibram), o engenheiro Jerson Kelman renunciou ao cargo, na sexta-feira. A decisão foi pessoal, segundo
apurou o Valor, e foi tomada uma semana após a tragédia de Brumadinho (MG). A entidade, que representa
as grandes mineradoras do país, perde um executivo de renome que foi contratado para executar um
planejamento estratégico ambicioso, o qual terá, agora, de ser revisto depois do segundo rompimento de
barragens ligadas à Vale em três anos: o primeiro foi o da Samarco, controlada por Vale e BHP Billiton, em
2015. No dia 25, o da mina de Feijão.
Kelman trabalhou por duas semanas no Ibram até pedir demissão. Procurado para comentar a
renúncia, antecipada na sexta-feira pelo Valor PRO — serviço de informações em tempo real do Valor — o
executivo não foi localizado. Kelman foi eleito pelo conselho diretor do Ibram, que reúne representantes das
suas associadas, no dia 18 de janeiro. Engenheiro civil, Kelman foi diretor-geral da Agência Nacional de
Energia Elétrica (Aneel) e presidiu a Agência Nacional de Águas (ANA), além de ter presidido a distribuidora
de energia Light e a Sabesp, estatal paulista de saneamento.
Agora o conselho diretor das entidades das companhias de mineração do país terá que buscar outro
nome para liderar a entidade. Kelman havia sido eleito para conduzir uma “nova fase” da entidade,
executando um planejamento que já vinha sendo desenvolvido e que seria posto em prática em dois anos.
Agora, o setor terá que se reposicionar e buscar novo diálogo com governo e sociedade, além de tentar
reconstruir a sua reputação, mais uma vez abalada por uma tragédia de grandes proporções.
Com a eleição de Kelman, as mineradoras do Ibram pretendiam estabelecer um diálogo mais
permanente e eficaz com o governo e com a sociedade civil, segmentos responsáveis pelas licenças
ambientais e sociais para que as empresas operem. Com a sua experiência, Kelman era visto como a pessoa
certa para reposicionar o setor, que respondeu, em 2017, por mais de 36% do saldo da balança comercial
do país e por 4,2% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do próprio Ibram.
A chegada de Jerson Kelman ao Ibram se deu três anos depois do desastre socioambiental provocado
pelo rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em 5 de novembro de 2015, o que piorou muito a
percepção da opinião pública em relação à mineração brasileira. Antes mesmo do acidente a atividade
mineral no Brasil era vista, pelo senso comum, como atividade predatória para o meio ambiente.
“A mineração é a indústria das indústrias”, disse ao Valor Luís Eduardo Osorio, presidente do
conselho-diretor do Ibram, pouco depois da eleição de Kelman. Osorio também é diretor-executivo da Vale
nas áreas de sustentabilidade e de relações institucionais. A afirmação de Osorio refere-se ao fato de que a
mineração é um insumo a partir do qual são produzidos os mais variados produtos. A tentativa do Ibram,
antes de Brumadinho, de buscar um novo posicionamento de imagem, coincidiu com a transição de governo.
A administração Bolsonaro já deu indicações, neste começo de governo, que pode discutir temas
sensíveis ao setor, como a mineração em terras indígenas e a mineração de materiais nucleares (urânio).
Depois de Brumadinho, o governo reagiu ao desastre dando sinais, em um primeiro momento, que poderia
intervir na Vale, ideia que foi prontamente afastada. Antes de se internar para passar por cirurgia, o
presidente Jair Bolsonaro prometeu apurar os fatos, cobrar justiça e tomar medidas para prevenir novas
tragédias como as de Mariana e Brumadinho. A Vale respondeu rápido à tragédia, anunciando várias
medidas.
As associadas ao Ibram respondem por 90% da produção mineral do país. São elas: Anglo American,
AngloGold Ashanti, Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN), Copelmi Mineração, Embú, Gerdau Açominas, Kinross Brasil Mineração, Mineração Rio do
Norte (MRN), Minerações Brasileiras Reunidas (MBR), Mosaic Fertilizantes, Nexa Resources, Samarco e Vale.
Fonte: Valor
Autor: Francisco Góes
Data: 03/02/2019

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