COMUNICAÇÃO COM A SOCIEDADE É O PRINCIPAL DESAFIO DA MINERAÇÃO

Historicamente reticente e introvertido, o setor mineral terá que melhorar sua forma de
comunicação com a sociedade sob pena de continuar demonizado. É o que afirma o presidente do
Conselho Diretor do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), Wilson Brumer, que foi convidado para
assumir o cargo tendo em vista sua larga experiência como dirigente no setor minero-metalúrgico e
também como gestor público. Porém, segundo ele, essa comunicação não deve se dar como uma política
de marketing que tenta vender uma boa imagem da mineração, mas uma estratégia “à la acupuntura”, ou
seja, um trabalho minucioso e consistente de esclarecimento da sociedade sobre o setor. Para ele, o setor
precisa aprender a ouvir com humildade, pois quem quer se comunicar também precisa saber escutar. Ele
também defende uma “oxigenação” do Ibram, no sentido de atrair para suas fileiras empresas de todos os
portes e segmentos da cadeia de mineração, rompendo com a visão de que a entidade é uma espécie de
clube fechado das grandes corporações do setor mineral. Confira.
BRASIL MINERAL – Entendemos que a mineração está vivendo um momento decisivo, em função
dos últimos acontecimentos. O setor sempre teve problemas com relação às comunidades, como se
comunicar direito, e isso foi levado a um paroxismo em função dos acontecimentos recentes. O que as
empresas de mineração pretendem fazer com relação a isso? Especificamente sobre Brumadinho, tivemos
conversas com alguns presidentes de empresas e a manifestação mais forte deles é: “Eu não tenho nada a
ver com isso, eu sou minerador, mas não tenho nada a ver com isso. Por que eu estou apanhando?
“Identificamos esse sentimento em uma ampla gama de empresas, uma coisa bem aberta, em termos de
porte de empresas e tipos de mineração que elas fazem.
WILSON BRUMER – Quando tenho insistido que o setor, principalmente minero-metalúrgico (e
aqui não incluo só a mineração), tem que melhorar sua forma de comunicação, é porque historicamente
esse é um setor um pouco reticente, introvertido em relação a se comunicar. Entendo a reação de algumas
empresas, mas de uma maneira também bastante franca, isso eu disse a todos eles, inclusive na primeira
reunião que tivemos no conselho do Ibram, é que quando acontece algo como o que aconteceu, isso não
se restringe apenas a uma empresa. Isso é visto pelas autoridades, pela sociedade como um todo, como se
fosse algo que acontece com todo o setor. Então quando você usa o termo mineração, a sociedade não
sabe separar o que é minério de ferro, o que é ouro, pedras preciosas etc. Daí a minha insistência de que o
setor tem que ser mais transparente, falar mais com a sociedade, porque, queiramos ou não, a sociedade
não distingue – principalmente em Minas Gerais e acredito que também no Pará, pela predominância do
minério de ferro – que há uma certa confusão e aí, em função do que aconteceu, todo o segmento de
mineração é demonizado. Acho que o setor já está entendendo isso, de que não dá para dizer, usando suas
palavras, isso não é comigo, etc. Eu acho que já existe o início de uma consciência de que todos nós temos
que nos unir em torno de um objetivo comum, senão todo o setor será afetado. Isso fica claro. As próprias
autoridades, quando tomam decisões como as que tiveram de ser tomadas, em função dos
acontecimentos, generalizam. Então, olhando as várias decisões que foram tomadas em termos de
portarias e legislação, não houve uma separação entre segmentos e empresas. Foram generalizados, como
se tudo fosse igual. Quanto a essa percepção de que o aconteceu não me afeta, já começa a haver uma
consciência de que não é bem assim. O que acontece em uma empresa da dimensão da Vale afeta o setor
inteiro. Tanto é que hoje a legislação está falando em mineração a seco como se fosse possível fazê-la em
todos os segmentos. Fala se em mineração a seco, mas ela também tem problemas. Antes as coisas iam
para a barragem, hoje teremos que estocar isso em algum outro lugar. Assim, também temos que
encontrar soluções para a mineração a seco.
Esse talvez seja o grande trabalho que o Ibram terá que desempenhar. Tenho dito muito aos
colegas da diretoria que, neste momento de comunicação, não esperemos grandes acontecimentos ou
grandes processos, tipo marketing. Tenho utilizado uma frase, principalmente com o Paulo (Paulo
Henrique Soares, diretor de Comunicação do Ibram), que hoje é o momento de comunicação “à la
acupuntura”. O que eu quero dizer com isso? Hoje, um evento como o que discutiu novas soluções para os
rejeitos tem que ser comunicado à sociedade, tem que ser mais propalado, mais falado… Quer dizer, não
se está fazendo esse evento para fazer disso uma grande propaganda, dizer que resolvemos o problema da
mineração. De novo, é aquela acupuntura, é um pontinho que está pegando no nervo e nós estamos
começando a discutir. E nesse processo de comunicação, eu não falo apenas das matérias que saem nos
jornais e nas revistas. Falo muito mais da comunicação tête-à-tête. Em trazer para mais perto as cadeias
produtivas. O setor de mineração, ao ficar passivo, ou às vezes até omisso na comunicação, acabou não
criando uma relação “falar mesmo” com seus vários stakeholders, aí incluindo o fornecedor. Às vezes as
soluções estavam mais próximas e não as comunicar traz diversos problemas.
Quando tenho insistido no fator comunicação, é porque levo em conta que há vários stakeholders e
para cada um deles deve-se ter um tipo comunicação adequado. Primeiro, se o setor está demonizado,
vamos ser pragmáticos. E não estou falando de empresas (uma está mais demonizada do que a outra, no
caso a Vale) mas do setor. A pesquisa de reputação que fizemos agora recentemente, mostra que, quanto
mais conhecida é a empresa, menor é a reputação dela perante a sociedade. Isso mostra que para aquelas
que não são conhecidas a reputação está melhor, porque as pessoas hoje só conhecem o lado ruim da
mineração. E como eles não conhecem a empresa, e não aconteceu nada com ela…Eu fico lá? Não. Mas há
outras implicações. A legislação vai ser a mesma se não houver uma separação, uma comunicação
adequada. As decisões tomadas pelas autoridades passam a ser as mesmas, quando de fato estamos
falando de coisas diferentes, e assim por diante. E na própria rediscussão do momento do Ibram, do novo
papel que vai ter que desempenhar, até na própria reorganização de seu conselho, queremos criar formas
dos vários setores se apresentarem com problemas e soluções diferentes. O mesmo problema e suas
soluções do ferro não é o mesmo do nióbio, e assim por diante. Então o próprio conselho do Ibram fará
mudanças, até para acabar com essa coisa de “aconteceu com alguém, isso não tem efeito sobre mim”.
Hoje o que aconteceu, eu te confesso… acho que até serviu, em muitos casos, para reflexão
também de outros setores da mineração, que talvez estivessem trabalhando de uma forma que, se fosse
mantida, poderia acarretar problemas. Essa reação que se teve foi aquela reação inicial, aquele primeiro
momento de susto, mas acho que depois que a poeira foi baixando, as pessoas pensaram: “Opa, deixa ver
o que aconteceu para saber se eu não tenho um problema parecido, porque podia ter acontecido comigo.”
Para ser franco, acho que já começa, eu não diria 100%, uma percepção de que isso não pode ser
visto como um fato isolado e de apenas uma empresa. Acho que tem que servir como um fator para o
setor se unir. As tecnologias empregadas podem não ser as mesmas, mas certamente soluções comuns
podem surgir. E a solução comum para mim é ser mais transparente, falar com os stakeholders. E estamos
falando da comunidade também, de fornecedores, do cliente final, e conscientes de que até o investidor
tem que ser colocado nesse processo, porque vamos ser realistas e pragmáticos: o investidor, ao analisar
se vai investir em um setor malvisto ou em um bem visto pela comunidade, onde ele vai investir? Então,
não dá para pensar de forma isolada sobre a minha empresa. Ela é importante, tenho que fazer o que
precisa ser feito dentro dela, mas não devemos isolar as empresas do segmento.
BRASIL MINERAL –Despertou nossa atenção o que o senhor disse sobre a reorganização do
conselho do Ibram. Embora não como decorrência direta e imediata, surgiu essa proposta de reorganizar o
conselho, no sentido de trazer outras empresas e outras visões sobre problemas comuns ao setor. Já existe
um programa de como isso será feito?
BRUMER – Nós já estamos no processo de revisão do nosso estatuto. Inclusive tínhamos agora, no
mês de junho, uma assembleia ordinária para aprovação de contas etcetera, e uma extraordinária, onde
iríamos apresentar a mudança no estatuto. Conversei com todas as empresas e achei que não se devia
fazer isso de uma maneira açodada. Achei que mudar o estatuto simplesmente por mudar não seria o
adequado. Estamos promovendo, sempre em conjunto, é meu estilo de trabalhar, uma discussão com
todas as empresas, de como vamos fazer esse novo estatuto, considerando essas demandas. Quer dizer, as
empresas sentirem que estão representadas, ouvidas e colocando seus problemas no conselho do Ibram e
unidas em torno do segmento mineração. O Ibram é o Instituto Brasileiro de Mineração como um todo,
não apenas de um segmento específico da mineração. Eu espero que talvez em agosto, no máximo
setembro, podemos estar com isso tudo encaminhado.
BRASIL MINERAL – Conversando com empresas de médio e pequeno porte, isso já é “tradicional”,
elas não se sentem bem representadas no Ibram e às vezes não têm porte nem para pagar as
mensalidades. Esse tipo de segmento vai ser contemplado nessa reorganização?
BRUMER – Sim. De novo, o Ibram não pode ser o instituto das grandes mineradoras Não adianta
falar em mineração se falarmos de geologia. Afinal de contas, está ali o futuro da mineração. Um dos
nossos objetivos é aumentar o número de associados, exatamente para que possamos trazer para o Ibram
mais pessoas. Porém, não adianta ser associado e não ter um produto. Por isso, de novo, o prazo maior
que pedimos. Vamos ter que desenvolver produtos. Quais são os produtos que iremos oferecer aos
associados? E permitir que mesmo esses associados que hoje não estão no conselho do Ibram tenham
fóruns adequados, até para se apresentarem, não necessariamente só no Conselho, mas participarem das
discussões na mineração. Hoje temos pequenas, até médias empresas, que não participam do Ibram, da
cadeia produtiva também. Queremos trazer todo mundo para essa discussão, como também o cliente. Na
mineração, a cadeia é muito longa, então temos que trazer o cliente também. Além disso, os clientes são
diferentes um do outro, de acordo com o produto. É um trabalho que, a meu ver, não vai se resolver do dia
para a noite, é um planejamento que já existia, mas inclusive estamos revendo esse planejamento
estratégico, revisão essa de curto prazo, até porque foi um trabalho (o planejamento estratégico) bastante
profundo que foi realizado lá atrás, mas em função dos novos acontecimentos tivemos que revisitar. Estou
chamando mais de revisita do que revisão, ao planejamento estratégico. Isso para que possamos, daqui
pra frente, em cima desse planejamento estratégico, fazer um plano de ação. Na minha vida profissional,
digo muito que “planejamento estratégico sem plano de ação é carta de intenção”. Certamente o pequeno
e médio minerador e a cadeia produtiva estarão incluídos nessa discussão. Nós temos no país mais de
9.400, entre grandes, pequenas, médias e microempresas de mineração. Vamos ver aonde chegamos.
Ninguém está fazendo a defesa de coisas erradas ou ser contra as investigações. Ao contrário, acho que
temos que fazer disso tudo que está acontecendo um enorme aprendizado, para que isso não se repita
mais. Nós estamos colocando o setor em risco.
Outra coisa que tenho insistido muito: sou de uma geração que, quando se formava nas escolas e
universidades, tinha a mineração como mais um setor que em que considerávamos trabalhar. Hoje, tenho
dúvidas se o jovem, em um ranking de profissões que ele quer abraçar, tem a mineração como uma das
primeiras colocadas. Acho que não. Então nós temos o trabalho enorme de atrair os jovens… E aí o Mining
Hub, que está em implantação, é uma boa demonstração dessa atração do jovem. Quem participa
normalmente das startups são eles. É mais uma demonstração de que queremos trazer os jovens, as
universidades, que têm uma série de pesquisas que não se revertem em produtos. Certamente, nas
universidades, principalmente aquelas mais especializadas no segmento de mineração, deve ter muita
coisa que talvez não conheçamos. Precisamos trazer esse lado acadêmico para discussão sobre a
mineração.
BRASIL MINERAL – A Comunicação parece ser a tarefa mais complicada que vocês têm de
enfrentar. O que está sendo discutido sobre isso? Como é que a mineração vai se comunicar com a
sociedade?
BRUMER – Eu não acredito em marketing em cima de fumaça, de coisas que não são concretas.
Agora, não adianta que o setor de mineração vá à televisão dizer “eu sou pop”. Não é isso. Por isso tenho
dito que agora é a fase da acupuntura. O que formos fazer agora tem que ser comunicado, que ir mudando
essa percepção da sociedade. Queiramos ou não, isso não é específico somente da mineração. Criamos
uma sociedade onde, em cidades ou regiões que têm alguma grande atividade empresarial específica,
acaba-se gerando uma dependência daquela atividade econômica que não é boa. Nós temos que criar uma
percepção de parceria entre atividade econômica e a sociedade na qual estamos inseridos. No Brasil,
sabemos que não foi assim. Muitos gestores de empresas, muitos operadores, de qualquer setor, às vezes
se consideravam mais importantes do que a própria autoridade. Esse é um conceito ultrapassado, a meu
ver. Nós temos que ser parceiros das comunidades. Nós não falamos de trabalhar internamente na
comunicação nas nossas empresas? Isso é um trabalho constante, e nas empresas também não é fácil.
Agora é outro momento. Além de externamente, nós temos que falar internamente. E não é com grandes
programas. Neste momento, a sociedade não vai acreditar em mineração pop. Não faz sentido isso. Agora,
é o momento de saber ouvir com humildade. Normalmente, o fator comunicação e o “fator ouvir” estão
interligados, concorda? Quem não quer se comunicar também não é capaz de ouvir. Nós temos que ter a
humildade de saber ouvir, a partir daí saber responder, conversar, atender. A resposta pode até ser “não”.
Mas é um “não” bem colocado…
Fonte: Brasil Mineral
Data: Ano XXXV – Junho de 2019

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