CINCO COMMODITIES JÁ CONCENTRAM 44% DAS VENDAS EXTERNAS

A concentração da pauta de exportações do Brasil em produtos primários
voltou a aumentar em 2017, depois de dois anos de queda. De janeiro a novembro, cinco
commodities responderam por 44% das vendas ao exterior, acima dos 40% registrados
no mesmo período do ano passado.
O maior peso é do complexo soja, com peso de 15,3% das exportações no
acumulado do ano, seguido por minério de ferro (8,8%), óleos brutos de petróleo (7,7%),
complexo carnes (6,9%) e açúcar (5,4%), segundo o Ministério da Indústria, Comércio
Exterior e Serviços (Mdic).
Num cenário de crescimento mais forte da economia global, as vendas de
produtos primários ganharam fôlego neste ano, ao mesmo tempo em que as
exportações de bens industriais avançaram em ritmo mais modesto, diz o economista
Fernando Ribeiro, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Isso
evidencia os problemas de competitividade da indústria”, afirma. Com isso, as
exportações se concentram nas commodities, segmento em que o Brasil é mais
competitivo.
Conquistaram espaço na pauta de vendas externas o complexo soja (grão,
farelo e óleo), o minério de ferro e o petróleo. No caso da soja, o que cresceu mais net
ano foi a quantidade embarcada. De janeiro a novembro, o volume exportado da
chamada soja mesmo triturada subiu quase 30% em relação ao mesmo período de 2016,
enquanto as cotações do produto avançaram apenas 0,8%.
No caso do minério de ferro, o efeito predominante foi dos preços, que
subiram 47% de janeiro a novembro. Os volumes vendidos cresceram 3,5%. Já as
exportações de petróleo aumentaram devido à combinação de expansão robusta tanto
de preços como de quantidades. De janeiro a novembro, as cotações subiram 31% sobre
igual período de 2016, ao passo que os volumes tiveram alta de 25%.
O pico da participação das cinco commodities na pauta de vendas externas
foi atingido em 2011, quando os preços de exportação do Brasil atingiram a máxima
histórica, puxada pela alta das cotações. De janeiro a novembro daquele ano, o conjunto
desses cinco produtos respondeu por 46,2% das vendas externas totais. Em 2000, essa
fatia não chegava a 20%.
O boom de commodities ganhou força especialmente a partir de 2004.
Depois de agosto de 2011, os preços de exportação passaram a recuar gradualmente,
caindo com mais força a partir de agosto de 2014. As cotações de commodities
começaram a se recuperar a partir de meados do ano passado, destaca Ribeiro.
O aumento das exportações de soja, minério de ferro e também petróleo
teve um peso importante do “efeito China”, como destaca o economista Lívio Ribeiro,
pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV).
Das exportações de soja mesmo triturada, quase 80% se destinam ao país asiático,
observa ele. No caso das vendas de minério de ferro, a China absorveu 54% das
exportações do produto no período de janeiro a novembro; no do petróleo, 43%, de
acordo com números do Mdic.
Para o economista do Ibre, o inconveniente de um país só ser o destino de
boa parte das vendas de determinado produto é que torna mais complicada a
negociação de preços, dado o poder de mercado do comprador. Observa, porém, que
há grande complementaridade entre o que o Brasil produz e o que a China demanda, o
que torna o país asiático um destino natural para as exportações brasileiras.
Ribeiro, do Ipea, observa que as exportações de produtos industriais pelo
Brasil mostram pouco fôlego, ainda que haja exceções. De janeiro a outubro, o volume
exportado de produtos manufaturados cresceu 4,6% em relação ao mesmo período de
2016, alta inferior aos 11,9% dos produtos básicos, segundo a Fundação Centro de
Estudos de Comércio Exterior (Funcex). Não há dados disponíveis ainda para novembro.
Uma das exceções da indústria manufatureira é o setor de veículos
automotores, reboques e carrocerias subiram, onde as quantidades destinadas ao
exterior subiram 32,2% no período de janeiro a outubro. O economista do Ipea observa,
porém, que essa alta se deu sobre uma base muito fraca. Para comparar, ele diz que o
volume de exportações de veículos, mesmo com a alta acima de 30% neste ano, ainda
deve ficar 10% abaixo do registrado em 2006.
Em 2016, as quantidades destinadas ao exterior de manufaturadas
cresceram 8%, num ano em que as de básicos encolheram 2,8%. Neste ano, as
exportações industriais avançam a um ritmo mais fraco, mesmo num cenário de
demanda global mais forte e com um câmbio que, se não é extremamente
desvalorizado, não parece inviabilizar as vendas externas, diz o economista do Ipea, o
que mostra as dificuldades de competição da indústria. Custo elevado da mão de obra,
deficiências de infraestrutura e defasagem tecnológica são alguns dos obstáculos.
Nesse cenário, as exportações de produtos primários ganham terreno na
pauta, num ambiente de crescimento global mais forte. Para o economista do Ipea, a
tendência é que a fatia das cinco commodities continue a avançar no ano que vem.
O problema de uma pauta tão concentrada em poucos produtos primários
o é uma parcela expressiva das exportações fica muito sensível a choque de preços, diz
Fernando Ribeiro. A questão é que as cotações de commodities tendem a oscilar mais.
Já Lívio Ribeiro considera que a concentração não é um problema em si. O
Brasil, lembra ele, tem grandes vantagens comparativas nos segmentos de
commodities. “A questão mais importante é usar de forma mais eficiente um eventual
ganho de renda proporcionado pelas exportações adicionais desses produtos, atacando
carências, por exemplo, em áreas como infraestrutura e educação”, afirma Ribeiro. “O
ponto central é promover eficiência, seja no uso do dinheiro, seja em toda a economia.”
Fonte: Valor
Autor: Sérgio Lamucci
Data: 19/12/2017

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