BRASIL TEM TUDO PARA SE DAR BEM COM A NOVA CHINA, DIZ ECONOMISTA

Helen Qiao, economista-chefe para a China do Bank of America Merrill Lynch, diz que o
país asiático passa por uma transição
Ao longo dos últimos 15 anos, a economista Helen Qiao fez carreira em
bancos de investimento em Hong Kong, acompanhando o mercado chinês. Hoje, ela
lidera uma equipe de 12 analistas no banco americano Bank of America Merrill Lynch e
é responsável pelos relatórios sobre a China. Numa passagem por São Paulo, ela falou a
EXAME sobre a nova fase da economia chinesa e os impactos para o Brasil.
A China é vista como a fábrica do mundo. Isso vai mudar?
Sim. Existem duas tendências importantes na China. A primeira é que a
economia está cada vez mais baseada no setor de serviços. Esse setor está crescendo
num ritmo mais rápido do que o industrial, e isso já vem ocorrendo há vários anos. A
segunda tendência é que a indústria chinesa se atualizou. O tipo de produto que a China
exporta é cada vez mais sofisticado.
Qual é a fatia desses produtos sofisticados?
Máquinas e equipamentos já são a categoria de maior participação na
indústria, incluindo as exportações. A China não é mais um país que exporta brinquedos,
guarda-chuvas, vestuário, sapatos etc. Essa não é mais a China de hoje. A nova China
produz computadores, celulares, máquinas. Estamos vendo uma transição. A China está
deixando que os outros países emergentes fabriquem os produtos de baixo valor que
ela fazia. A China, em si, está buscando o próximo degrau na cadeia de valor global.
Qual é o impacto dessa transição para os demais países?
Haverá vencedores e perdedores. A China vai se tornar cada vez mais um
competidor à altura de Coreia do Sul, Taiwan e Japão, países que serviram de modelo
para ela. A China possivelmente assumirá o lugar deles. Os países desenvolvidos vão se
sentir mais ameaçados pela China do que os emergentes.
De que lado o Brasil está?
O Brasil está muito bem posicionado para se beneficiar dessa transição. O
Brasil tem uma economia que é igualmente influenciada pelo aumento do consumo
interno chinês e pelo investimento em infraestrutura. A China vai precisar importar mais
produtos do que o Brasil fornece.
Que tipo de produto?
Aqueles ligados à agricultura, como grãos de soja. A China ainda importa
mais soja dos Estados Unidos do que do Brasil, mas há potencial para inverter essa
situação. Também vemos potencial para um aumento na exportação de aves e carne
bovina para a China. Água potável e área cultivável são recursos escassos por lá. E esse
é o tipo de recurso em que o Brasil é rico. Basicamente, a China está importando luz
solar, água potável e terra cultivável ao importar produtos do campo.
Há espaço para o Brasil exportar produtos industriais à China?
Não muito. A China é muito dominante nessa área. Mas provavelmente
investidores chineses virão ao Brasil para começar a exportar manufaturados do Brasil,
seja para países da América do Sul, seja para a América do Norte.
A economia brasileira se beneficiou do crescimento chinês na década de
2000 e no início de 2010. Isso voltará a acontecer?
Sim. Se olharmos para os preços de commodities, já estamos vivendo outro
boom agora. Mas há uma diferença desta vez. A China está dando ênfase à proteção
ambiental. O governo está pressionando as empresas para se tornarem mais limpas.
Como isso influencia o Brasil? Há um aumento da demanda por matérias-primas de
qualidade superior e menos poluentes, como minério de ferro. Brasil e Austrália levam
vantagem nisso.
Fonte: Exame
Autor: Felipe Serrano
Data: 01/02/2018

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